Entrevista com Cecília Nobre: sobre aulas personalizadas de inglês

A entrevista do mês de setembro é com uma professora que, cansada de lecionar em cursos de idiomas tradicionais, decidiu abrir sua própria escola de inglês. Hoje, Cecília Nobre coordena uma equipe de professores que atende todo o Rio de Janeiro através de aulas individuais e em pequenos grupos, inclusive crianças a partir de 4 anos de idade. Nesta entrevista, Cecília fala sobre sua experiência como professora no Brasil e na Inglaterra, sobre as vantagens e desvantagens de lecionar em aulas particulares, e conta como foi o processo de abrir sua própria rede de ensino. Está imperdível!
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EiB: Como você aprendeu inglês e por que decidiu tornar-se professora?


CN: Comecei fazendo curso de inglês aos 8 anos, fiz CCAA e depois Cultura Inglesa até o último nível, terminei aos 20. Aos 18 entrei para o curso de Letras na UFRJ e me apaixonei ainda mais pelo idioma. A decisão de me tornar professora de inglês veio da minha paixão pela língua e pela vontade de ajudar outras pessoas a aprenderem essa língua tão importante.
EiB: Conte-nos sobre sua experiência como professora assistente em Birmingham, na Inglaterra.
CN: Eu trabalhei em algumas escolas primárias na Inglaterra pois já tinha essa experiência no Brasil. Foi uma experiência muito enriquecedora, pois claramente via a diferença no sistema de ensino dos dois países, sendo as escolas da Inglaterra muito mais inclusivas do que as do Brasil. Trabalhei com crianças de 9 à 11 anos, elas tinham dificuldade de aprendizado, algumas consideradas Special Needs (crianças com necessidades especiais) como autismo. Participava de reuniões com os pais e a escola, trabalhava com um currículo diferente do da sala de aula para fazer com que as crianças atingissem seus potenciais. Também dei suporte a uma criança portuguesa recém chegada no país e na escola, que praticamente não falava nada de inglês. Fiquei fazendo trabalho com ela one-to-one por 6 meses e o grande trunfo foi ver um dia ela dentro de sala fazendo um teste de ortografia onde ela acertou todas as palavras.

EiB: Você também lecionou Português para estrangeiros na Inglaterra. Quais as diferenças entre lecionar sua língua materna e uma língua estrangeira?
CN: Eu prefiro muito mais ensinar inglês mas tive uma grande demanda para aulas de português ao chegar na Inglaterra. A diferença é que ao ensinar português para estrangeiros, ficamos mais atentos e curiosos em relação a nossa própria língua, conforme vemos as dúvidas dos alunos. E você também nota que os alunos brasileiros e ingleses têm dificuldades parecidas em termos de pronúncia ( o inglês tem dificuldade com os sons nasais, os brasileiros com as vogais longas e curtas, por exemplo), entonação, estrutura do discurso, etc. Vejo como o português é uma língua difícil para ensinar, comparada ao inglês. 
EiB: Além dessa experiência na Inglaterra, você já lecionou em diversas escolas de idiomas no Brasil. Por que optou por dedicar-se exclusivamente à aulas particulares?
CN: Eu me cansei da estrutura das escolas de idiomas tradicionais, com 15 ou 20 alunos em sala, algo humanamente impossível para mim. Além do fator financeiro, as escolas de idiomas pagam uma mixaria para o professor, algo que pra mim beira a falta de respeito, depois de tantos anos de estudos, dedicação e investimento. Como aluna e como professora, acredito realmente no ensino personalizado, individual, para o melhor aproveitamento do aluno. O aluno que procura esse ensino personalizado realmente está motivado a aprender, o que é bem mais estimulante para o professor.

EiB: Quais as vantagens e as desvantagens de aprender inglês em aulas particulares? E de lecionar?
CN: As vantagens são de aprender e render bem mais do que aulas em grupos, o aluno tem atenção exclusiva do professor. Quando o professor conhece realmente o aluno, mais fácil fica para ele preparar a aula para esse aluno, de acordo com seus gostos, perfil, histórico, metas etc. A desvantagem é que é preciso ter muita disciplina e seriedade, às vezes acontece de o aluno desistir no meio do caminho por N motivos, alguns cancelam muitas aulas…
EiB: Como é ensinar inglês em aulas particulares para crianças? Elas não ficam impacientes?
CN: Depende de cada criança e por isso eu sempre faço uma entrevista inicial com os pais ou responsáveis da criança e ela própria para conhecê-los antes de iniciar qualquer trabalho. Gosto de saber do que elas gostam de fazer, que músicas curtem, tipos de filmes, jogos, se viajam muito para o exterior. Também é interessante ler relatórios escolares e ver provas e cadernos que usam na escola. É importante esse diálogo com os pais frequentemente.
EiB: Além de lecionar, você coordena uma equipe de professores particulares no Rio de Janeiro. Como foi esse processo?
CN: Ano passado eu comecei a ter uma demanda maior do que eu podia dar conta. Sempre tive esse desejo em abrir minha própria escola de inglês, algo diferente do que vejo por aí. Queria coordenar professores e dar aula ao mesmo tempo, ensinar o que eu tenho aprendido, aprender ainda mais, formar uma equipe realmente qualificada e disposta a customizar as aulas de acordo com o perfil de cada aluno. Primeiramente coloquei um anúncio no jornal, selecionei alguns professores por meio de análise de CV, questionário em inglês sobre metodologia e entrevista. Vi alguns professores excelentes e dentre eles, conheci a professora Sylvia. Temos uma visão de ensino muito parecida e depois de uns meses eu a convidei para dividir a coordenação do curso comigo, pois eu já não conseguia tomar conta de tudo sozinha. Hoje os professores conhecem o contrato, as regrinhas, passamos um relatório de entrevistas dos alunos com todo o perfil desse novo aluno, trabalhamos com alguns livros do mercado (gosto muito do Inside Out para curso de inglês geral, por exemplo). Fazemos reuniões pedagógicas mensais, os professores me enviam o plano de aula semanalmente, fichas de presença, relatório de desempenho mensal, e especialmente, nos comunicamos por e-mail todos os dias e por telefone. É um trabalho que requer muita atenção, cuidado, profissionalismo e responsabilidade. Meu pai, que também é meu contador, me ajuda imensamente na questão financeira, fazendo o pagamento dos professores. Tornei-me MEI ano passado e foi muito importante nessa mudança de pessoa física para pessoa jurídica.
EiB: Como você lida com a parte burocrática do seu trabalho, ou seja, questões como pagamento e cancelamento de aulas?
CN: Eu trabalho com um contrato renovável que pode ter de 3 à 6 meses e nele descrevo todas as regrinhas. Uso a política de 24 horas de cancelamento para o aluno poder repor essa aula que ele vai precisar faltar. Porém, mesmo assim limito para 25% das aulas mensais o número de cancelamentos com reposições que ele pode ter, do contrário, vira bagunça. 

O pagamento é feito antecipadamente por meio de cheques pré-datados, com valores mensais fixos. Precisamos de algumas regrinhas simples para poder fazer um trabalho realmente sério e eficaz, infelizmente vejo ainda muita informalidade e camaradagem com relação às aulas particulares. Todas essas regrinhas e o contrato são lidos junto com o novo aluno no primeiro dia de aula.
EiB: Muitos aprendizes preferem estudar em cursos de idiomas para obter o certificado de conclusão. O que você pensa sobre isso?
CN: Acho uma perda de foco e de dinheiro. Certificado de conclusão de curso não vale absolutamente nada aí fora. O que conta e muito são os exames internacionais como o TOEFL, IELTS e exames de Cambridge, por exemplo. Esses são certificações com reputação internacional que fazem a diferença em qualquer currículo.

EiB: Que tipo de material você utiliza em suas aulas, e como você avalia o nível de proficiência do aluno?
CN: Eu faço uma entrevista inicial e uma análise de necessidades para conhecer melhor o aluno e poder avaliar seu inglês falado. Quando o aluno se sente confortável, conversamos por uns 15 minutos em inglês para eu poder avaliar sua pronúncia, entonação, uso de vocabulário, tempos verbais e se seu discurso é coerente. Nas aulas gosto de adotar um livro de acordo com o nível do aluno, atualmente uso a série Inside Out da editora Macmillan e também gosto de usar a internet para noticiários, vídeos, músicas etc.

EiB: Deixe uma mensagem para professores de inglês que desejam seguir o seu exemplo e lecionar exclusivamente em aulas particulares.

CN: É preciso se organizar financeiramente e elaborar suas regrinhas, de preferência através de um contrato. Sugiro virarem MEI (Micro Empreendor Individual) e seguirem uma metodologia na qual você acredita. Pagamento sempre antecipado e as regras com relação a cancelamento e reposições de aulas devem ser explicadas na entrevista. 

EiB: Cecília, muito obrigada pela sua participação! Aprendi muito com você!
CN: My pleasure! :)
Cecília em Londres

Story telling com seu aluno de 5 anos
Teacher Training com Adriano Zanetti 
(Improving listening skills)


  • Beatriz Perez

    Achei interessantíssimo a ideia de criar um escola com o intuito exclusivo para alunos particulares e deixar com que os professores sejam livres em suas aulas e com sua própria metodologia. A história da Cecília até me inspirou a investir mais em minhas aulas particulares e a entrevista ficou super interessante!!!